Billie Eilish: “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” – O que te assusta? | Crítica

Em um som amplo, mas muito coeso, Billie Eilish mostra-se ótima em trabalhar conceitos em seu novo disco

  • Artista: Billie Eilish
  • Álbum: When We All Fall Asleep, Where Do We Go?
  • Lançamento: 29/03/2019
  • Gravadora: Darkroom / Interscope Records

Nota: 8,3/10.

Lançado na madrugada desta sexta-feira, o álbum de estréia de Billie Eilish conquistou o topo do iTunes USA em apenas 10 minutos. A jovem cantora segue fazendo história ao conseguir conversar com diversas tribos sociais ao mesmo tempo, apenas com o doce som de sua voz.

Produzido por FINNEAS, irmão de Billie, o álbum possui uma incrível atmosfera sombria, mas ao mesmo tempo um pouco cômica. Digamos que se trata de um trabalho bem agridoce, que agrada gregos e troianos, sendo Pop o suficiente, mas sem deixar sua identidade alternativa para trás. Creio eu que sua face Indie morrerá com seus próximos discos.

Ainda que seja um disco que trabalhe muito com sons eletrônicos, a marcação do baixo segue muito presente na maioria das faixas. O piano é outro instrumento que aparece bastane durante o álbum, e essa característica de piano e voz é algo que os dois irmãos já trazem desde 2016.

Billie e Finneas fazem uma mistura bem homogênea de Synthpop, Trap, Hip-Hop, R&B e Punk Pop. E assim o objetivo de “When We All Fall Asleep Where Do We Go?” é concluído.

Um ponto muito importante a ser ressaltado é a atmosfera criada pelo produtor. Muitas das canções presentes aqui poderiam facilmente ser inseridas em obras cinematográficas do gênero terror. São músicas que a sua mente liga à Tim Burton, ou Stephen King. Alguns exemplos são: “Ilomilo”, “Bury a Friend”, “all the good girls go to hell” e “you should see me in a crown”.

O álbum se inicia com “!!!!!!!”, que com 13 segundos, nada mais é que um diálogo entre Billie e seu irmão, e nessa conversa eles falam sobre um produto que Billie passa nos dentes e então ela diz “esse é o álbum”, daí pula para a segunda faixa.

“Bad Guy” tem o mesmo estilo de “Bury a Friend”, no quesito cantar em uma região mais grave de forma sussurrada. Quando ela começa você já sabe que será uma das melhores de todo o disco. Na música Billie fala sobre se relacionar com caras com um jeitão meio Bad Boy, mas ela não faz isso para se apaixonar, mas como um hobby. Sua letra é bem sensual, e Billie até brinca com isso.

“Xanny” não me convenceu muito com sua melodia que alterna entre voz e beats pesados de Hip-hop, mas com certeza é relevante por conta de sua letra. Nela Billie fala sobre adolescentes que usam de forma irresponsável alguns medicamentos, como o Xanax, a fim de se drogar por recreação.

“all the good girls go to hell” trás de volta o velho R&B, popular nos anos 90, mas em um tom assustador. Sua letra é uma provocação à religião. São citadas algumas referências à santos católicos, e ao todo a música contesta a forma como a religião impõe seus dogmas, se preocupando mais com a vida alheia do que com os problemas reais. É umas das canções que mais funciona dentro do conceito do disco.

“When The Party’s Over” é a música fossa do álbum. Ao som do piano Billie canta sobre relacionamentos líquidos e pessoas que só estão com você quando podem obter algo em troca. Uma das melhores composições.

“8” começa de forma acústica, tocada ao ukulele, com vocais modificados a se assemelharem a voz de uma criança. A música ganha corpo pouco tempo depois, com batidas moderadas. Sua letra fala sobre um amor platônico que faz Billie se entristecer. Ela demonstra de mais por alguém que não liga o bastante.

“My Strange Addiction” é incrível! Seu instrumental marcado pelo baixo e pela bateria cria um incrível clima de anos 90, que já não se ouvia há anos. Em contraponto à construção sonora, sua letra é um tanto quanto boba, comparando seus sentimentos em relação ao cara que ela gosta à vícios em medicamentos.

“Ilomilo” possui uma melodia melancólica e aterrorizante. Seus samples são inteligentes e a produção impecável. seu título faz referência à um jogo de quebra-cabeça de 2010. A cantora descreve um relacionamento onde não há uma comunicação clara e os dois não se entendem, tendo que juntar as peças o tempo todo para decifrar os sentimentos.

“Listen Before I Go” é outra balada tocada ao piano, uma vez que sua voz combina super com o instrumento. Sua letra é pesada e amedrontadora. Diferente de todas as outras do álbum, que buscam por artifícios folclófricos para criar um clima tenso, esta é assustadora por falar sobre o suicídio de forma tão direta.

“I Love You” é tocada ao violão, com uma melodia acústica. Com vocais expressivos e graves, que intercalam uma voz masculina e crescem na ponte para o refrão, Billie conversa sobre sua relação desgastada com o amante, sabendo o que vem depois de tantas discussões. “Eu te amo” não é uma frase linda quando dita sem emoção.

“Goodbye” é a faixa que encerra o álbum. Começa com um grandioso coral formado pela voz de Billie com um piano ao fundo. Sua letra na verdade mescla pequenas frases ditas em todo o álbum, criando um conceito que mistura as três últimas faixas em uma frase: “listen before i go, i love you, goodbye”.

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O álbum de Billie Eilish é a prova física e sonora de que quando você deixa um adolescente colocar para fora todas as suas frustrações, sempre sai arte. Com pouquíssimas pessoas envolvidas no disco, Billie e Finneas conseguiram criar um trabalho expressivo e de muita qualidade.

Temos de analisar também o fato de que é um álbum muito homogêneo na questão dos estilos musicais escolhidos para o compor. Há apenas quatro baladas românticas que são dramáticas, e tendo em vista que o drama é o sentimento mais fácil a se trabalhar, percebe-se que Billie investiu muito na interpretação de suas músicas.

Algumas das composições me decepcionaram um pouco, como por exemplo “Wish You Were Gay”, “Goodbye” e “My Strange Addiction”, entretanto, o que as músicas não entregaram nas letras, conseguiram suprir na produção.

O real problema que encontrei analisando o “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” é a distância que se cria do contexto do disco. O que era para ser um álbum cheio de letras sobre revoltas sociais, virou um diário de sofrimento adolescente.

Ouça:

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