CRÍTICA: Charli XCX – “Charli” (futurista, porém sentimentalista)

It’s Charli baby! O tão aguardado disco de Charli XCX está oficialmente entre nós e já adianto que este é um dos melhores trabalhos de sua carreira, alinhando sonoridade, letra e conceito. A cantora introduz seu estilo musical como uma espécie de religião, assim como podemos perceber já pela arte de capa.

Após quase 5 anos de espera, Charli XCX finalmente pode compartilhar com o mundo seu terceiro álbum de estúdio “Charli”. Prometido para 2016, este passou por diversas fases e interferências da gravadora. Durante o período, as faixas não aproveitadas deram vida as aclamadas mixtapes “Number 1 Angel” (2016) e “Pop2” (2017), dando um gostinho do que estava por vir.

No álbum autointitulado, somos apresentados à dualidade da artista, onde a exagerada autoconfiança, niilismo e a superficialidade da vida de festas são contrapostos pela profundidade de seus sentimentos e inseguranças.

O álbum foi lançado pela Asylum Records e conta com os nomes de AG Cook, Dylan Brady, EASYFUN, Happy Perez, Lotus IV, Nömak, Oscar Holter, Patrik Berger, Planet 1999, StarGate e Umru & Watt – não conheço nenhum deles, mas de fato fizeram um bom trabalho.

Charli já sabia o que queria e o executou com perfeição. A artista mescla o som Pop atual com a cultura da PC Music de uma maneira mais fácil de se consumir. Atualmente ela é a cantora refência do estilo e pode-se dizer que este disco está mais “digerível” do que seu “Pop 2” de 2017. As batidas estão mais mainstream, mas o modulador vocal continua firme e forte.

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“Next Level Charli” abre o álbum com versos otimistas e cheios de confiança, numa infusão de trap – é uma ótima introdução para o que vem a seguir. A faixa logo dá espaço para “Gone”, parceria com a canadense Cristina and the Queens, uma das faixas mais poderosas do projeto.

Em “Cross You Out” o som carregado, que conta com parceria dos vocais de Sky Ferreira, traz à tona a vontade, e quase desespero, da artista de superar o trauma de um coração partido.

“1999” nós já conhecemos e amamos o conceito. Charli, ao lado de Troye Sivan, fala sobre esse amor incondicional pela cultura pop dos anos 90. A produção é incrível e trabalha com um uma base instrumental toda eletrônica, bem alto astral.

“Clck It” conta com uma produção bem pesada e vocais graves, a melodia não é nada óbvia e não segue uma linha tênue, soando um pouco barulhenta de mais. É a mais esquecível do disco, ainda que tenha uma proposta interessante por trás, pois fala sobre a sociedade dos cliques, que esperam resolver tudo com certa rapidez e simplicidade.

E contraponto a faixa “Warm”, em parceria com as irmãs “Haim”, é uma das melhores do disco. Tem uma melodia doce e contagiante. Sua letra fala sobre se apaixonar e não ser correspondido, questionando os motivos de não poder gostar muito desse alguém, lembrando àquela velha pauta da liquidez nos relacionamentos.

Na mesma pegada intimista, temos “Thoughts”, “Silver Cross” e “I Don’t Wanna Know” onde Charli se vê apaixonada e totalmente submersa a este sentimento. As três faixas contam como o eu-lírico se sente a respeito desse amor, que soa genuíno mas acaba por ser um pouco conturbado. Ela procura lidar de forma madura com esse sentimento.

Em meio a isso temos “Blame It On Your Love”, em parceria com a rapper Lizzo, que é a faixa mais maistream de toda a obra. É bem enérgica e dançante. Charli fala sobre sua vida de festas e coloca a culpa de sua bebedeira na insegurança de ser correspondida por seu amante.

A faixa “White Mercedes” segue falando sobre esse sentimento e o medo de ser emocionalmente machucada. Charli diz ter uma armadura que impede qualquer um de se aproximar, e então se vê indecisa nessa situação de deixar o amor entrar em sua vida ou não. A melodia é bem doce e romântica, talvez a mais fofa de todo o disco nesse sentido.

Mas “Official” é a verdadeira balada romântica do disco, soando bem original e sincera, talvez uma das mais vicerais de “Charli”. A cantora conta sobre como seu relacionamento é simples, mas bem coeso e bonito. A letra é sobre conhecer os defeitos de alguém, mas entendê-los e gostar dessa pessoa mesmo assim. A melodia é bem calma e agridoce.

“Shake It” é uma incógnita e soa bem diferente de todas as outras faixas. Também conta com uma produção bem atípica, com boas batidas, mas a melodia bem irregular. Temos a presença de grandes nomes da músicas como Pabllo Vittar, Brooke Candy, Cupcakke e Big Freedia. Sua letra conversa sobre o uso de drogas e a vida festeira que é cheia de altos e baixos.

Logo após vem “February 2017”, em parceria com Clairo e Yaeji. O instrumental é bem neutro, mas vai evoluindo aos poucos. O refrão é explosivo e eletrônico. Na letra o que podemos captar é um pedido de desculpas ao namorado de Charli, o Huck Kwong, a quem ela afirma ter machucado algumas vezes. Kwong é a grande musa inspiradora dessa obra.

O álbum é encerrado com “2099”, também em parceria com Troye. Contrapondo “1999” a proposta dessa é soar como a sua sequência futurista. A letra, junto da melodia, nos levama a entender que a música eletrônica estará bem mais em alta e o sentimento social será apenas resumido a sexo, fama e drogas – não muito diferente de hoje, mas sem nenhuam válvula de escape.

Charli XCX confirmou e reafirmou todo o seu talento para escrita e apostou alto no conceito geral de seu novo álbum. Ao analisar todas as letras e sentir todas as modulações do disco eu só posso afirmar que é impossível fugir do amor. É como Madonna disse em 1986 “Não há onde se esconder do olhar do amor”.

Futurista ou não, Charli comprova que o amor move o mundo, ainda que possamos preencher o vazio deixado por ele com festas, bebidas e drogas, mas não há como apaga-lo de nossas vidas.

O álbum possui dois polos, um onde a artista explora a tecnologia, a juventude que está à flor de sua pele e o movimento da PC Music como sendo algo sólido. No outro podemos sentir suas emoções fluindo, mostrando que ela ainda é apenas uma garota com sentimentos e um amor no qual ela quer ser correspondida à altura.

Algo que me incomodou um pouco foi a presença de faixas que destoaram o ritmo do projeto, mas só por conta da fluidez que ele leva até certo ponto e depois quebra o ritmo. “Click It”, “I Don’t Wanna Know”, “Shake It” e “2099” tem ótimas letras, porém instrumentais bem exóticos que não se encaixam no resto do disco.

7,9/10 – Nota

Ouça na íntegra:

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