Rina Sawayama – “SAWAYAMA” (Crítica) | Uma família é muito mais do que apenas sangue

Há menos de um ano quase ninguém sabia o quão talentosa é Rina Sawayama, uma cantora britânica com descendência japonesa. Mesmo tendo lançado seu EP “Rina” em 2017, eram poucos os que conheciam a poderosa voz da cantora, e foram muitos os que ficaram de queixo caído com a nota 93 no site Metacritic em seu primeiro álbum de estúdio.

Nota:

8,9

“Sawayama” é o álbum de estréia de Rina e este foi lançado no dia 17 do mês de abril pela gravadora Dirty Hit, junto com o quinto álbum de Fiona Apple, igualmente aclamado. A produção do disco é assinada por cerca de 6 profissionais, incluindo Kyle Shearer que já trabalhou com Carly Rae Jepsen e Melanie Martinez, além da própria cantora que supervisionou todo o trabalho e assinou as letras junto de outros 10 compositores.

No álbum não há apenas um gênero musical em destaque, mas vários que são testados pela artista, desde o Hard Rock (sim!! E ficou muito bom) até o Hip-hop, passeando pela cultura musical do Japão – em relação aos cânticos e a maneira de utilizar os vocais – e chegando na Disco Music. Rina desenrola qualquer estilo de música e tudo vira arte em suas mãos.

Apesar de suas músicas terem uma atmosfera bem sensual, talvez por conta dos vocais graves e fortes da cantora, as canções de Sawayama não possuem conteúdo sexual algum. Muito pelo contrário, o real foco do disco é o núcleo familiar de Rina e como ela entrou em uma jornada de auto-conhecimento quando se propôs a compor as faixas do álbum.

Rina Sawayama lança álbum de estreia eclético e com personalidade

A jogada de mestre da artista foi chamar a atenção do público com um conceito sonoro e visual super icônico – sério, essa mulher é show de mais – para que quando forem ouvir seu disco, se depararem com mensagems subliminares, ou não tão subliminares assim, sobre o meio ambiente, o capitalismo e a cultura do consumismo em excesso. Igual quando Madonna lançou o “Erotica”, o álbum que fala sobre sexo, mas também sobre os perigos da AIDS e o preconceito da sociedade.

Começando de forma bem provocativa, Rina abre seu disco com a faixa “Dynasty”, uma canção que fala sobre seu núcleo familiar sanguíneo, com quem a cantora tem algumas desavenças por conta da forma conservadora como seus pais foram criados e ela afirma que sua dinastia familiar é apenas ela. A canção é um show de produção, tendo bastante guitarra pra quem curte um rock.

Logo podemos ouvir o hit “XS”, que se pronuncia “Excess”, ou “excesso” pros brasileiros. A música tem um refrão bem chiclete, e além de contar com uma sonoridade meio J-Rock, ainda fala sobre a sociedade do consumo. A cantora a lançou como terceiro single para a promoção do projeto, confira o clipe oficial:

A terceira faixa se chama “STFU”, uma abreviação de “Shut The Fuck Up”, que significa “Cala a P**** da Boca”. Esse foi o primeiro single do álbum e sua mensagem é em relação à xenofobia velada, pois Rina é asiática e sempre ouviu piadinhas sobre seus olhos puxados e foi vítima de piadinhas de mau gosto. Essa música sim é bem estilo J-Rock, bem pesadão.

“Comme Des Garçons” é a quarta faixa do álbum, essa com um clima bem sexy e uma mensagem bem feminista por trás. A linha de baixo dessa música é incrível, ouso dizer que é uma das melhores. Sua letra é simples e fala sobre como seria irônico se as mulheres se comportassem iguais aos homens, e se isso acontecesse elas seriam chamadas de “p*tas” pelos mesmos. Rina chegou a lançar um remix com a Drag Pabllo Vittar para promover a música. Confira o clipe oficial:

Na música “Akasaka Sad” Rina se lembra daz vezes que vistou Tokyo e sentiu àquele sentimento de “homesick”, além da mesma se sentir muito desligada do Japão, como se ela não pertencesse ao seu país natal. Ela também faz uma pequena ligação à forma como seus pais se sentiram quando imigraram para Londres. A sonoridade é próxima da Pc Music, com influências do Hip-hop.

Em “Paradisin'” a cantora volta a falar sobre sua família e suas recordações de quando era pequena, em um tom nostálgico, porém ao mesmo tempo melancólico. A música é bem agitada e tem um clima real de nostalgia. O refrão é bem animado, no geral é uma música bem alegre, a não ser pelas memórias que a cantora narra na letra. OBS: Tem um solo de saxofone incrível no meio.

“Love Me 4 Me” é um hino sobre amor próprio, digamos que uma balada que Rina escreveu para si mesma. Na letra ela aborda a sua própria rotina de pensamentos e como ela se esforçou para ser alguém que ela não é. Então ela chega na conclusão de que precisa se aceitar como é, para poder deixar outra pessoa te amar. Durante a música podemos observar o bordão de Rupaul: “Baby, eu tenho lhe dito, se você não pode amar a si mesma, como você vai amar outra pessoa?”. E atenção especial para os sintetizadores presentes na faixa, é quase uma música dos anos 90.

Rina Sawayama announces debut album 'Sawayama' | DIY

Em “Bad Friend” a cantora assume ter sido uma má amiga, e reconhece ter errado ao apenas se distanciar de seus amigos mais especiais. Ela cita o caso de uma amiga que teve um bebê e ela nem ficou sabendo, pois estava muito ocupada. É uma das músicas mais sinceras do álbum.

“Fuck This World” é a nona faixa do disco e funciona como uma interlude. Nesta música, Rina canta sobre como o mundo que conhecemos está se tornando um lugar inabitável. Ela sugere uma mudança de atitude ou uma mudança para Marte. É uma canção curta e bem gostosa, apesar de ser triste.

Uma das melhores do álbum, na minha opinião, é “Who’s Gonna Save You Now?” que tem uma pegada bem Rock Clássico, bastante sintetizador, estilo Europe – tem até mudança de tom pro final da música. A letra é muito legal, pois fala sobre quando você tenta ajudar a pessoa e ela continua insistindo no erro, então Rina pergunta “quem vai te salvar agora?”.

Rina Sawayama Continues to Defy Pop Conventions | Dorkaholics

A faixa “Tokyo Love Hotel” é uma canção bem pessoal sobre como Rina se sente em relação à Tokyo. A música fala sobre como os turistas tendem a achar que Tokyo é como um parque de diversão, sendo que lá é uma cidade como qualquer outra e merece respeito. O termo “love hotel” soa como um “motel” para nós, pois são hotéis de estadia curta, igual as viagens dos turistas para lá.

Logo após temos a balada “Chosen Family”, que é uma canção muito tocante em relação à como alguns se sentem deslocados de sua família. Rina sugere que seus fãs e amigos se sintam parte de sua família e se sintam acolhidos por ela. Muito forte e emocionante né? Principalmente pelo fato de se tratar de uma faixa direcionada ao seu público LGBTQ+.

Para finalizar o disco temos a faixa “Snakeskin”, que a cantora dedica para a sua mãe, outra vez entrando no assunto familiar. Rina canta sobre a cultura do consumismo e relaciona isso com uma bolsa de pele de cobra e ao mesmo tempo com a sua mãe, e a forma como sua mãe mudou ao decorrer dos anos, fazendo também alusão a si mesma.

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O álbum de Rina Sawayama tem de tudo, tem militância, assuntos pessoais com direito à sentimento de nostalgia, música de conscientização, mais uma pitada de militância e tudo isso com uma produção excelente. Eu observei que no disco não há uma balada sobre amor romântico, mas sim sobre amor familiar e amizade, é realmente uma obra muito profunda, principalmente pela dificuldade que é compor um disco todo inspirado em problemas humanitários. Rina é uma cantora e compositora incrpivel e com certeza veremos muito mais dela de agora em diante.

Ouça o disco na íntegra:

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